Cobranças e a Turma da Mônica

Cobranças. De novo, olhei por debaixo da porta de casa e percebi que havia uma pilha de contas a pagar. Nada interessante. Só cobranças e mais cobranças. Saudades da época em que, no colégio, como tarefa de casa, tínhamos que enviar cartas aos coleguinhas de turma. Lembro-me bem da alegria que sentia ao ver que um envelope, preenchido à mão e devidamente selado, havia sido endereçado a mim! Era muito exclusivo e personalizado!

Sinto falta do tempo em que, de presente de Dia das Mães, enviava, pelos Correios, um poema, acompanhando de um desenho colorido, para a mulher mais importante da minha vida. Algo tão simples, mas tão significativo, tão único e cheio de amor! Saudades do clássico “Correio da Mônica” que ficava bem no miolo dos gibis do mestre Maurício de Sousa. Para a maioria dos leitores, aquela sessão era um tédio e só servia para tirar o lugar das duas páginas que poderiam estar repletas de quadrinhos do Cebolinha, Cascão, Mônica ou Magali. Eu, entretanto, era curiosa. Amava saber quem lia as aventuras do Bairro do Limoeiro. Minha cabeça se enchia de perguntas estilo Globo Repórter: “de onde eram aquelas crianças? De qual personagem mais gostavam? O que queriam ler em uma próxima historinha? A vida de quem escreve para a Turma da Mônica… Hoje, no Globo Repórter…” (Ps.: leia com a voz de Sérgio Chapelin para dar um toque de dramaticidade!)

Parece que a simplicidade e originalidade das coisas – e por que não das pessoas também? – foram cedendo lugar ao imediatismo, à pressa, à correria do dia a dia e, é claro, às cobranças. Extrato de banco, de cartão, ou melhor, de vários cartões, débitos, créditos, saldos positivos e, na maioria das vezes, devedores… Nos tornamos devedores de dinheiro, de tempo e de vida. E não basta devermos, temos que cobrar também! Cobranças, cobranças e cobranças. Do banco, dos amigos, da família, de você. Sim, autocobrança. A pior de todas, a mais dolorosa, a responsável pelas noites de sono inquieto, de medo, pânico e até depressão. Não basta viver em uma sociedade em que você precisa competir por décimos na prova da faculdade ou escolher a alternativa correta para ingressar no curso dos seus sonhos.  Você quer ser o melhor no trabalho, na família, nos estudos, no grupo de amigos… e se, por acaso, não o for? Você se frustra, vê-se infeliz e se cobra. Mais e mais. Adolescente frustrado. Adulto frustrado. Adolescente problemático. Adulto problemático.

Cadê a simplicidade, a originalidade, o preocupar-se mais com as coisas boas da vida? Vai ver a solução esteja em recuperarmos o tradicional Correio da Mônica e, ao invés de enviarmos aos outros e a nós mesmos uma infinidade de cobranças, passarmos a desejar mais paciência, calma, tranquilidade e alegria. Afinal, qual será o próximo plano “milabolante” do Cebolinha?

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