Sim, eu parei de estudar e saí do colégio – Parte 3

“Oi, tudo bem? Meu nome é Camila Petribú e eu preciso contar um fato sobre mim: eu, quando estava no 2º ano do Ensino Médio (2013), decidi parar de estudar e saí do colégio. Sim, eu PAREI DE ESTUDAR. Sim, eu não concluí o colégio de forma regular e, sim, eu já me culpei MUITO e já tive MUITA vergonha em admitir isto. Digo sempre a todos que vivi uma experiência nem melhor nem pior quando comparada a dos meus amigos (e a de tantos outros adolescentes) que terminam, de maneira normal (diga-se “regular”), o ensino médio, digo que vivi, apenas, uma experiência DIFERENTE.

Tá chegando agora e não leu a primeira parte do texto?? Então, é só clicar aqui: SIM, EU PAREI DE ESTUDAR E SAÍ DO COLÉGIO – PARTE 1 e PARTE 2


2013 foi um ano de sofrimento (sim, sofri pra caramba), de amizades intensas (ganhei melhores amigos incríveis), de brigas intensas (afinal, toda amizade, de verdade, tem briga), de muita comida (engordei uns bons quilos) e de (algum/pouco) estudo. Parei de estudar no colégio, sim, mas continuei estudando o que mais amava: idiomas. Voltei ao inglês e ao espanhol (a língua da minha vida!) e iniciei o italiano. Já aconteceu de ter aula dos três idiomas no mesmo dia, uma atrás da outra. Quase enlouqueci (às vezes, misturava espanhol com italiano, por exemplo), mas aprendi bastante. Como disse na parte 1 do texto, não foi uma fase nem melhor nem pior do que a da maioria dos adolescentes de minha idade: foi, apenas, uma fase diferente. Tive uma rotina diferente, com pessoas diferentes e em lugares diferentes.

Nosso tripé: amizade intensa e brigas intensas também (hahahaha)
Nosso tripé: amizade intensa, brigas intensas e alguns quilos a mais também (hahahaha)

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Lembro que, durante a madrugada, quando eu estava no auge da minha ansiedade, eu conversava com um grande amigo por whatsapp. Acho que as intermináveis noites assistindo ao Programa do Jô (amo absurdamente), vendo Acumuladores e conversando com meu amigo fizeram com eu mantivesse a cabeça nos eixos e não endoidasse. Muita gente pensa que “ficar um ano sem ter o que fazer” é incrível e eu digo: não é. Você se sente um grande nada. Você se sente o cocô do cachorro que pisam na rua. Você sente um vazio sem fim. 

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Passei um tempo morando na casa da minha avó com outras 12 pessoas (casa de vó sempre tem lugar para mais um!) e, neste tempo, aprendi a ter paciência, revi alguns conceitos pessoais e passei, não só a me entender melhor, mas a entender melhor os outros. Ganhei novos irmãos (meus primos que também moravam lá), algumas mães (fora a minha mãe, algumas tias que me tratavam como filha) e fiquei sem rotina por algum tempo.

Minha família materna. Morei, por algum tempo, com algumas das pessoas que estão nesta foto!
Minha família materna. Morei, por algum tempo, com algumas das pessoas que estão nesta foto!

Tentei ocupar a mente: quando não estava nas aulas de idiomas, escrevia, pintava caixas ou fazia supermercado (o que demorava horrores, pois éramos 13 na casa). Aos poucos, fui vendo que eu não havia perdido a minha família “original” (eu, minha irmã e meus pais), minha família continuava a mesma: eu tinha pais maravilhosos, que sempre me apoiavam e estavam presentes na minha vida e tinha uma irmã incrível, que me entendia como ninguém. A única diferença é que, agora, meus pais não estavam mais casados e não moravam embaixo do mesmo teto. Mas eu continuava, sim, tendo uma família linda.

Teve quem entendesse minha decisão e a decisão dos meus pais sobre eu ter parado de estudar, mas houve também quem nos criticasse. Muita gente me virou as costas, me julgou, inventou fofoca, mas… Sabe de uma coisa? Eu entendo. Entendo porque já fui do time das pessoas “que julgam”. Mas ter sido “a diferente” pela primeira vez me fez entender que ninguém tem direito de se meter na vida do outro e que cada um faz o que quiser da sua vida. Aprendi com o sofrimento e sou grata por isso.

Em 2014, voltei a estudar no mesmo colégio, sendo que em uma turma mais nova que a minha turma “original”, afinal, eu não havia cursado o segundo ano do ensino médio e não podia, simplesmente, “pular” para o terceiro. Fui super bem recebida, mas não “me senti pertencente aquilo ali”. Os professores continuavam incríveis, a turma era maravilhosa (a maior concentração de gênios por metro quadrado que já vi), parecia que estava tudo igual (tudo igual ao ano de 2012) exceto por um pequeno detalhe: eu havia mudado. Eu é que estava diferente.

No ano que passei “parada” (sem frequentar o colégio) aprendi que estudo é muita coisa, mas não é tudo na vida. Eu que, por anos, havia respirado livros e absorvido o máximo de conteúdo possível, queria, sim, estudar, mas não loucamente como antes. O excesso me fazia mal. O colégio era extremamente “puxado” e exigia um ritmo de estudos intenso, coisa que, para a “Camila de antes”, era perfeito, mas a “Camila de 2014” não queria mais isso. A “Camila de 2014” estava com outra cabeça, havia vivido coisas diferentes e não se encaixava mais ali e nem em qualquer outro colégio.

Resolvi, então, sair do colégio no meio do ano. Sim, “parei” de estudar novamente. Decidi estudar para os vestibulares em casa. Novamente, fui criticada. Meus pais também foram criticados por, mais uma vez, me apoiarem. Sei que muita gente pensa “Que tipo de pais são esses que deixam a filha parar de estudar duas vezes?” E eu respondo: esse tipo de pais – meus pais – nunca deixaram de acreditar em mim. Eles sabiam que eu estava passando por uma fase difícil, mas que, como toda fase difícil tem um início, ela também deveria ter um fim. Eles sabiam que a minha vontade de estudar, de aprender e de querer ser alguém na vida estava o tempo todo ali comigo, eu só precisava me encontrar.

O Supletivo

Assim que saí do colégio (pela 2ª vez), em junho de 2014, decidi que iria fazer supletivo. Confesso que me bateu, além do medo, uma vergonha danada. Senti vergonha porque a autocobrança era algo constante em minha vida e, por mais que soubesse que várias pessoas conhecidas haviam feito supletivo, eu me sentia uma completa aberração da natureza. O fato é que eu tinha planejado os meus 3 anos de Ensino Médio, mas, naquela altura da minha vida, meus planos já tinham ido por água abaixo. Ou eu terminava o colégio (aguentaria mais um ano e meio) ou eu caía fora e fazia supletivo. Fiquei com a segunda opção.

Era dia 28 de setembro de 2014 quando cheguei em João Pessoa com meu pai. Eu estava um poço de ansiedade, três doses de desespero, um grande gole de medo e muita, MUITA, vergonha. Fiquei hospedada em um hotel próximo à praia de Tambaú. Um dia antes do supletivo, comi uma das melhores e maiores tapiocas da minha vida. Caminhei na orla e voltei ao hotel para estudar os conteúdos que faltavam para a prova.

No dia 28, me dirigi ao local onde faria a prova e… surpresa! Estava LOTADO! A surpresa só foi ainda maior quando encontrei algumas pessoas conhecidas de Recife e esbarrei com uma antiga amiga que morava em João Pessoa. Foi aí que comecei a ver que supletivo não era “coisa de outro mundo”. Notei, também, que, muitas vezes, a gente nem percebe o tanto de gente que faz a prova. Alguns comentam com os amigos, outros, não. Pessoas de todas as idades e das mais diversas classes sociais optam por fazer supletivo… por vários motivos.

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Tive a oportunidade de, em janeiro deste ano (2016), voltar ao local onde fiz supletivo. Me emocionei: foi um “mix” de nostalgia, alegria e realização. Nem acredito que já se passou tanto tempo desde aquela fase de “estresse, medo e vergonha”. Hoje, tenho orgulho de dizer que fiz supletivo e que aprendi um tanto de coisas com ele!

Mesmo tendo constatado tudo isso, eu não consegui relaxar. Tive dor de barriga durante a prova, mesmo sabendo que era muito fácil. Mas, por conta da danada da autocobrança (me perseguindo mais uma vez), eu só conseguia pensar: “Meu Deus, todo mundo diz que supletivo é tão fácil, que é a prova mais ridícula da face da Terra, imagina, então, se eu não passar? Imagina a vergonha que não vai ser…Eu vou ser lembrada como: “Camila, a menina que reprovou no supletivo” Sim, eu ligava pra opinião dos outros na época, e isso me consumia de um jeito horrível.

Dias depois, sai o resultado: APROVADA. Podia não ser numa Federal da vida, mas eu estava tão feliz quanto. Agora, era estudar para o ENEM e para os outros vestibulares, para poder, enfim, escolher o curso da minha vida, a minha futura profissão. Mas será que ia ser tão fácil assim?

Continua…

 

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